Eu preciso saber Cabala?

Aqueles que me conhecem pessoalmente e assistem aos meus cursos de Tarot, sabem que faço associações entre o Tarot e a Cabala, mais particularmente, com um diagrama que a sintetiza: a Árvore da Vida.

Você não precisa saber Cabala para aprender a lidar com o Tarot. O clipe abaixo apresenta de forma resumida o que seria interessante saber a respeito da Árvore da Vida, no âmbito de um curso de Tarot:

 

Mas afinal, existe mesmo uma ligação entre o Tarot e a Cabala e, particularmente, com a Árvore da Vida? E se eu quiser apenas aprender Tarot? E se eu quiser apenas aprender Cabala?

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A volta do Messias

O Arcano do Sol parece ser uma lâmina de significados simples e diretos, mas contém um conjunto de orientações e pistas importantes para aquele que percorre o Caminho da Iniciação. A. E. Waite manteve o simbolismo do Arcano, embora tenha modificado a imagem. Por esta razão, farei um comparativo entre as imagens do Tarot de Marseille e aquele elaborado por Rider-Waite.

sol

Em Marselha, temos um par de crianças (associadas ao Signo Zodiacal de Gêmeos). O Sol emana raios que representam os quatro elementos. Algumas versões contém doze raios e outras dezesseis. No primeiro caso, alude ao Zodíaco, no segundo, aos pontos cardeais. Despeja várias letras Yod contendo o gérmen da vida. As crianças se encontra diante de um muro. Uma toca o umbigo da outra, enquanto esta toca o pescoço da outra.

Em Waite, a imagem do Sol (com doze raios) e do muro são preservadas. Porém, ao invés dos gêmeos, há uma criança montando um cavalo branco, com aparência dócil. Sobre o muro, encontramos vários girassóis. A criança porta um estandarte vermelho que, na lâmina, tem o formato de um grande Yod.

Esta lâmina representa a Graça Preveniente (ou Divina Providência) nos estendo a sua mão, é a oportunidade de nos reconciliarmos com o plano divino. Este Arcano é sua porta de acesso, sem ser ainda a meta, que é alcançada pelo Arcano da Estrela. Vale lembrar que o Sol é igualmente uma estrela. Com respeito ao Arcano do Sol, costumo lembrar a passagem bíblica “… Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim.” (João 14:6). A criança sobre o cavalo representa a passagem encontrada em Mateus 19:13-15, em que Jesus repreende a seus discípulos e privilegia a pureza das crianças.

Em Waite, a pureza e a inocência dominam os instintos, docilizados, representados pelo cavalo branco. Os girassóis seguem a trajetória percorrida pelo Sol ao longo do dia, é o tema do culto e da adoração. Encontram-se sobre um muro, que é tema comum nas versões do Tarot de Marseille e Rider-Waite, está associado ao véu (de Paroketh) que separa o mundo divino do mundo da Criação.

Por fim, o Sol, em primeiro plano, corresponde à representação da Luz de Deus. Em várias culturas, o Sol era adorado como representante de Deus. Cabe lembrar que, na Árvore da Vida (na versão de W. G. Gray e provavelmente adotada por A. E. Waite), o Arcano do Sol corresponde ao caminho entre as esferas da Lua (esfera 9) e do Sol (esfera 6), sugerindo que a meta do Arcano do Sol é a consciência da Unidade.

A Letra Hebraica

Como alcançar a consciência da Unidade a partir deste Arcano? A letra hebraica correspondente a este caminho é Resh, primeira letra de Rabi. O desenho desta letra representa um homem curvado ou “aquele que é pobre”. Esta letra é composta de duas linhas, uma horizontal e outra vertical, representando o intelecto e a fala. Diferente do que ocorre com a letra Dalet, falta a Resh o Yod, a inspiração divina. Portanto, cabe ao indivíduo usar de sua humildade para lidar com o intelecto e a fala de forma útil e não degenerar em discórdia. Isto é alcançado pela consciência.

8c02854210281bac443381a23a8a03f3Portanto, o movimento deve se dar do Homem em relação à Deus. A Reconciliação é uma tarefa individual que devem ser empreendida conscientemente. Deus já estendeu a sua mão, cabe a nós aceitar a sua oferta (Graça Preveniente). Isso ocorre por meio da consciência (do estado de degeneração humana, da falsidade do mundo dos sentidos, etc…). Quando a consciência se eleva do universo dos desejos, ascende pela Via Cardíaca e assume o seu lugar à altura da glândula pineal, o indivíduo estará pronto para reconciliar-se com o Divino e aguardar a oportunidade da abertura dos portais para a reintegração, deixando de existir na Roda das Encarnações.

Resh também representa Rosh (a cabeça e, particularmente, a região superior do crânio), local onde é colocada a Coroa, que será encontrada na 1ª esfera e retrata esta etapa anterior à Reintegração.

Outros Arcanos Solares

O Arcano da Carruagem é visivelmente um Arcano Solar. O condutor da carruagem porta um escudo solar. O Arcano Enamorados tem o Sol destacado acima da imagem do Arcanjo que abençoa o casal. É muito provável que A. E. Waite soubesse da posição destas duas lâminas no arranjo dos Arcanos do Tarot sobre o diagrama da Árvore da Vida ao adotar uma representação absolutamente solar para estas duas lâminas, conceito este que foi adotado também por A. Crowley em seu Tarot Thot. Estas duas lâminas contém ainda uma particularidade: cada uma delas contém nitidamente uma representação completa da Árvore da Vida.

Porém, o outro Arcano costuma passar desapercebido, raramente é lembrado. O Arcano da Lua conta com a imagem do Sol entrevisto por entre a imagem da Lua. Esta é uma informação importante deste Arcano, pois nos remete à ideia do objetivo principal desta lâmina que é desafiar o passado e buscar a verdade (consciência da Unidade).

hatorHator, uma das deusas egípcias primordiais, tinha como símbolo um disco solar entre chifres de vaca, no qual havia um uraeus (serpente que morde o próprio rabo). Dentre outras coisas, esta divindade governava o ciclo do Sol (do nascer ao por, bem como, seu ingresso nos equinócios), a Via Láctea e o entrada da alma nos reinos após a morte. Um mito alternativo a identificava com a abóbada celeste, suas quatro patas servindo de pilares de sustentação do Universo (papel posteriormente atribuído a Nut). As indicações sugerem que seja uma divindade Anunnaki, provavelmente Ninhursag (neste caso, seria responsável pelo surgimento da Humanidade).

A serpente que se apresenta enrolada sobre si mesma em Hator surge com Thot, enrolada num caduceu, ambos associados à vida. No caso de Hator, a serpente está relacionada ao ciclo das encarnações, fechado em torno de si mesmo. Em outras palavras, a serpente uraeus corresponde ao círculo ou circuito fechado, enquanto que a serpente no caduceu, corresponde ao ciclo aberto da elevação espiritual.

O Arcano da Lua oferece a oportunidade de transcender este ciclo fechado das encarnações, bastando que se empreenda a viagem pelo “caminho estreito” que leva ao desconhecido, tendo como meta, entretanto, a reconciliação (consciência de si mesmo e a consciência da unidade, em última análise, são a mesma coisa).

Em Gênesis, a Luz ocorrem em duas etapas: no primeiro dia, Deus disse “Haja Luz” e assim surgiram o dia e a noite (separou a luz das trevas); os luzeiros (Sol e Lua) surgiram apenas no quarto dia da Criação. Portanto, ambos, Sol e Lua, são representantes de uma Luz primordial, à qual se encontram subordinados. O Homem surgiu no sexto dia…

Assim, quando fitamos o Arcano do Sol, não estamos diante de uma representação divina, mas sim, de um caminho que pode nos levar a um estágio intermediário importante iniciado com desapego ao cômodo mundo das sensações e dos desejos, representado pelo poço ou lago do Arcano da Lua.

O Presépio

Trata-se de um dos maiores símbolos do messianismo cristão e, provavelmente, tenha sido tomado de cultos anteriores, em razão de seu simbolismo. A descrição das imagens que compõem o presépio é encontra em Lucas 2. Em Mateus 2 não há nenhuma descrição, detendo-se no sinal que identificaria o nascimento divino (a estrela), seguido pelos magos do Oriente.

presepio

A imagem do presépio adotada pela Igreja Cristã remete aos Arcanos da Árvore da Vida: Jesus envolto em panos numa manjedoura, absolutamente luminoso e iluminado, corresponde à esfera 6, do Sol. A estrela indicando sobre Belém, apontando para Jesus corresponde à esfera 1, do Universo e das estrelas fixas. José e Maria colocados lado a lado, correspondem aos pilares da Árvore da Vida. Os animais e os pastores correspondem à esfera 9 (Lua).

A concepção da Virgem pelo Espírito Santo é um mito anterior à concepção de Jesus e presente em outras culturas. A Igreja Cristã, particularmente a partir de Paulo, apropriou-se de estórias que eram contadas em recontadas desde os tempos imemoriais, dentre elas, ainda, a ressurreição.

Conclusão

O Messianismo, especialmente o apocalíptico, está contido no inconsciente coletivo da Humanidade desde os tempos da Suméria. Encontra-se presente destacadamente nas cosmologias egípcia, grega e hindu. A crença em uma divindade que julgue os vivos e os mortos e os permita se elevarem (ou não) para uma etapa seguinte do plano divino pode ser comparada à crença de que num determinado tempo, virá uma grande nave espacial para trocar os governantes de nosso planeta (substituir os “deuses”) e recolher os humanos mais nobres nesta nave para empreenderem uma longa viagem para um destino distante e ignorado do Universo.

O Mistério do Nascimento e Morte se encontra retratado, no Cristianismo, no Natal e na Páscoa. O drama da divindade é o drama de cada um de nós e nosso ciclo das encarnações, dos quais procuramos nos libertar. É relembrado através dos ciclos do Sol: dia, ano e precessional. O Arcano do Sol surge para nos recordar que caminho para a Reconciliação se encontra disponível para aqueles que desejam transcender a Roda de Samsara, iniciada após a descida dos anjos e a queda do Homem.

Deixando a energia fluir

Vaidade e ego sempre foram características próprias do ser humano, contudo, em algumas áreas do conhecimento e do saber, elas parecem ficar mais evidentes, sempre que há algum “poder” envolvido. O ambiente iniciático é uma destas atividades onde algumas pessoas insistem em se destacar, quando deveria ser justamente o contrário, como é ensinado nestes locais.

Há um adágio cabalista que afirma que, a um dado momento, o maguid deve sair de cena e deixar o grupo desenvolver-se por sua conta. É o que um pai faz com os seus filhos.

No ambiente corporativo estimula-se o trabalho cooperativo e participativo, mas o papel do líder não inclui que ele saia de cena.

Porém, quando olhamos para os símbolos à nossa volta, notamos que existem várias indicações da fase de transição pela qual estamos passando. Em breve, iniciaremos a Era de Aquário. É o único Signo Zodiacal absolutamente humano e, representa a humanidade funcionando como uma grande fraternidade de irmãos e irmãs com propósitos essencialmente sociais. Aquário é o Signo do Exílio do Sol: é o ego que se encontra exilado, porque o que importa é o grupo, suas interações e as atividades realizadas em equipe. Segundo o Observatório Astronômico de Paris, a Era de Aquário se inicia em 2100.

av_aqContudo, gostaria de empregar um outro símbolo, o da Árvore Perfeita. Considera-se que esta Árvore corresponderia ao Homem antes da Queda e, também representa o Homem/Humanidade quando reintegrados. Observe que, neste diagrama absolutamente harmônico, não há grandes caminhos a serem percorridos e o influxo divino se derrama sobre a Criação de maneira direta, sem intervenções ou dobras, como ocorre na Árvore da Vida habitual.

Os spins de energia também estão contidos nesta árvore, com o propósito de transformar energia em movimento e não em matéria, como na Árvore após a Queda. Movimento e vibração são intercambiáveis.

Os símbolos falam por si e, um dos meus maiores objetivos em vida é a coerência. É a Vida que nos ensina que a cooperação é o caminho mais rápido para o sucesso e a felicidade. Há alguns ditados populares neste sentido (“A união faz a força”, “Unidos venceremos”…), porém, acredito pessoalmente que a soma das diferenças (pensamentos, sentimentos e intenções) torna o resultado de qualquer atividade cooperativa mais rica e mais brilhante.

Sim, eu acredito que a soma dos esforços multiplica os resultados.

Que o coração de Deus nos inspire e ilumine, sempre!

Três representações de Lúcifer/Saitan

11/07/2015 1 comentário

Este artigo é um complemento ao artigo principal Breves Reflexões sobre os Anjos, onde você encontrará minha visão pessoal a respeito da Criação, dos Anjos e de Lúcifer.

As origens das imagens do Tarot são extremamente controversas, dando margem a inúmeras especulações. Não há dúvidas de que a Igreja interferiu em algumas das imagens, tornando-as menos pagãs e melhor associadas à religiosidade cristã da Idade Média. O Tarot de Marseille é a primeira referência existente no Ocidente, com respeito ao conjunto das imagens dos Arcanos Maiores do Tarot.

Ainda assim, é possível encontrar traços da representação de Lúcifer/Saitan em três lâminas:

diabo_merlin Diabo: Trata-se de uma associação excessivamente óbvia com Saitan. Nas culturas celta e nórdica, estava associada ao Green Man, uma espécie de guardião da floresta e que não permitia que ninguém entrasse em seu reino sem permissão. A posição da mão do Diabo é tipicamente a de um policial. Esta lâmina, mesmo representando uma crise ou um impasse, encontra-se fortemente ligada à sexualidade. Note que o casal nu e acorrentado ao cubo (na representação de Rider-Waite) é o mesmo que encontramos nos Enamorados, antigamente associado ao casamento sagrado (Hyerogammus) realizado por uma sacerdotisa. O papel do guardião da floresta era receber os convites para a festa deste casamento, de fato, um ritual de fertilidade. Saitan é aqui a serpente do Éden, que estimula a criatividade através de uma crise onde se busca uma solução criativa através do conhecimento, algo que os antigos associavam à prática da sexualidade sagrada.

morte_marselhaMorte: A morte é o principal adversário da vida, muitas vezes, ceifando-as a seu bel prazer através de epidemias, guerras ou outros tipos de violências muito comuns em nossos dias. Porta uma foice, instrumento que se assemelha ao símbolo do planeta Saturno. Chronos, Senhor do Tempo, era eventualmente retratado portando uma foice. Waite desenvolveu um imaginário associado à regeneração e à supressão das vaidades. Chronos foi destronado por Zeus com a ajuda dos Titãs, inaugurando a Era de Ouro da Humanidade. Nossos “corpos de barro” envelhecem, deterioram-se e perecem graças à ação do tempo, castigo imposto a Adão e Eva quando expulsos do Paraíso por terem comido do “fruto proibido”. Na realidade, não tiveram oportunidade e tempo para experimentarem do fruto da outra árvore…

eremita_rwEremita: Uma pessoa de idade, no cume mais elevado de montanhas geladas, portando um bastão e protegendo uma fonte de luz do vento com o seu manto. A luz é obviamente associada ao saber e ao conhecimento. Em Thot Tarot, o Eremita porta um ovo contendo espermatozoides, numa clara alusão à magia sexual, de natureza criativa, regeneradora e transformativa. Lúcifer é o portador da luz divina, seu papel era transmiti-la aos seres espirituais abaixo de si. A distribuição da luz polarizada ocorre na lâmina seguinte, Hierofante. Portanto, o Eremita corresponde ainda à fase de Lúcifer antes da Queda. Esta abordagem, entretanto, suscita a possibilidade do Hierofante ser Lucífer ou algum preposto após a Queda.

Colaborou: Diego Viana.

As Sephiroth e os Arcanos Menores

A Cabala se encontra sintetizada no diagrama da Árvore da Vida e seu aspecto principal são as Sephiroth, termo hebraico para esferas.

As principais referências bibliográficas para entender a estrutura e funcionamento da Árvore da Vida são o Sepher Yezirah e o Zohar. O primeiro dedica os Capítulos I a III a descrever estas esferas, recipientes de luz e, através das quais flui a Criação. O Zohar dedica quase metade de seus discursos ao mesmo propósito. Não há discordâncias em relação ao papel e importância das esferas entre os diversos cabalistas. O fato é que a Árvore da Vida é descrita em razão de seus Sephiroth.

Entretanto, não houve consenso com relação aos caminhos. As duas fontes acima citadas permitem algumas interpretações diferentes. Foram os cabalistas medievais que propuseram a distribuição dos caminhos semelhante ao adotado hoje em dia. Luria, entretanto, fazia uso de um outro modelo, igualmente interessante e lógico, representando a sua própria interpretação do Zohar. O fato é que há muitas maneiras de estabelecer ligações entre as esferas (caminhos), dando origem a diferentes Árvores da Vida. Porém, a “Década surgida do Nada” é imutável e padrão, está estabelecida com muita clareza nos textos de referência.

Assim, a única afirmação inconteste com respeito à Árvore da Vida é que ela é composta de dez esferas, que se organizam a partir de uma ordem sequencial e hierárquica. De longe, elas são o aspecto mais importante e essencial neste diagrama. Ao contrário, os caminhos entre as esferas podem ser traçados de várias maneiras diferentes, de acordo com a interpretação que se fizer das fontes bibliográficas.

Esta digressão é importante porque os ocultistas/hermetistas do final do século XIX e início do século XX notaram certas coincidências entre o Tarot e a Árvore da Vida e resolveram ligar um ao outro. Acredito que estes ocultistas/hermetistas não se preocuparam em compreender os mistérios da Cabala simbolizados na Árvore da Vida. Por isso, precisaram criar uma nova entidade distinta da primeira e com a qual sequer se aparenta.

Pelo sistema criado e difundido pela Golden Dawn, os Arcanos Maiores foram atribuídos aos caminhos porque “coincidentemente” estes são em número de 22. As letras hebraicas foram distribuídas do alto para baixo sem nenhuma preocupação com sua natureza ou propriedades. O mesmo foi feito com relação às lâminas dos Arcanos Maiores.

Já as Cartas Numeradas dos Arcanos Menores foram alocados às 10 Sephiroth. Ou seja, os Mistérios Menores, associados às questões mundanas e cotidianas, foram associados aos recipientes de luz divina, aos símbolos de maior importância e significado na Árvore da Vida. E, os Arcanos Maiores, representando arquétipos universais, estão dispostos em caminhos (que sempre estarão subordinados às esferas).

Há ainda um outro problema: o que fazer com as 16 Cartas da Corte que fazem parte do conjunto dos Arcanos Maiores? Várias soluções foram propostas pelos ocultistas/hermetistas daquela época. A farta bibliografia de Tarot e Cabala do período sugere a necessidade de justificar um sistema que não tem relação com o original, não pode ser considerado um subconjunto,  e é de fato uma outra coisa que não Cabala. Porque? Porque se tentou justificar a Árvore da Vida através do Tarot, quando dever-se-ía fazer o contrário.

4estaçõesOcultistas mais recentes propuseram uma outra abordagem com relação aos Arcanos Menores: associá-los às Estações do Ano sem se preocupar em estabelecer uma ligação com a Astrologia (o que seria outra missão impossível).

Neste arranjo, cada Estação corresponde a uma determinada Carta da Corte e as 52 cartas restantes comporão um calendário semanal. É provável que este arranjo tenha surgido na Europa Oriental, trazido pelos ciganos com o baralho comum. Por sua vez, estes podem ter herdado de outros povos do Leste… Mas este é possivelmente o mais lógico e inteligente arranjo para os Arcanos Menores, dissociando-os das esferas.

Os significados dos Arcanos Menores não se alteram por conta destas reflexões, mas a sua importância e compreensão, como abordado no curso de Arcanos Menores, disponível nas versões presencial e online.

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O mapa da mina: a visão do neófito

Durante a vida, em várias ocasiões, surgem situações em que o indivíduo busca algo mais, muitas vezes, sem saber exatamente do que se trata. Ocorre o desejo de, como nos sonhos, sair voando por aí, livre, para onde a alma mandar.

O verdadeiro desejo de mudança ou transformação só surge de um inconformismo ou de uma insatisfação. A tendência do ser humano é manter o seu status quo, uma vez que é avesso a qualquer alteração em roteiro de sua vida. “Em time que está ganhando, não se mexe”, diz o ditado.

Porém, há outro ditado que fala que o ser humano só se move se a água estiver batendo nos quadris… E é deste tipo de motivação que pretendo tratar neste pequeno artigo. O que faz um indivíduo sair de sua inércia e se mover em direção a algo diferente ou maior? Se não houver uma finalidade, um objetivo, uma meta a ser alcançada, não há razão para sair do lugar.

Felizmente, o ser humano detesta se sentir limitado. As restrições levam ao inconformismo. A opressão, mal que volta a assolar a humanidade em seus mais diversos níveis, é o primeiro adversário a ser batido. Estar escravizado a compromissos ou ainda pior, ficar sem alternativas, é o que há de mais frustrante para qualquer um. Você pode estar cheio de compromissos financeiros ou dívidas, ou ainda, sobrecarregado de tarefas e responsabilidades profissionais ou familiares, sem tempo para si e os seus desejos pessoais. Apenas tomar consciência é suficiente para provocar uma reação, embora seja o primeiro passo.

Há quanto tempo não viaja com os seus familiares? Quando passeou pela última vez com seu cônjuge e filhos? Quando se dedicou às pessoas que ama de maneira espontânea e relaxada, sem o sentido de dever ou obrigação? O segundo passo é a entrega emocional. Dissolver as mágoas e ressentimentos é um passo importante, mas não suficiente ainda.

Qualquer mudança realmente importante depende de se livrar de hábitos, vícios e preconceitos. Apenas se tornando um “Novo Homem”, literalmente renascendo, é que poderá provocar as mudanças desejadas. É preciso criar um “vazio” para ser preenchido com o que há de saudável. O êxito nesta etapa poderá ser notado através de uma mudança na postura de seu corpo, geralmente mais ereta e franca, e um maneira tolerante de acompanhar o mundo à sua volta.

Mas se não houver uma finalidade ou nenhum passo tiver sido dado em sua direção, continuará dando voltas em torno dos mesmo problemas e questionamentos. É quando você começa a andar em círculos. Ou olhar à sua volta. E quando o faz, há três possibilidades: percebe que há pessoas muito bem sucedidas ao seu redor; ou aquelas que não estão nem aí e empreendem, vão à luta do que desejam; ou ainda, aquelas que parecem ter um objetivo distante, intangível maior do que si mesmas.

inerciaÉ hora de olhar para o diagrama ao lado. Representa a esfera Reino ou Malkuth, da Árvore da Vida. As cartas 10 dos Arcanos Menores do Tarot ilustram o que se passa neste campo da experiência, onde o objetivo é sair da inércia, desde que haja uma finalidade, uma meta, um objetivo.

Desta esfera, partem três ramos ou caminhos, cada um representado por uma letra do alfabeto hebraico e ilustrado por uma lâmina dos Arcanos Maiores do Tarot.

O caminho que parte do Reino em direção à direita corresponde à letra hebraica Tsadic e ao Arcano Mundo/Universo. A conotação das letras hebraicas é espiritual e uma das ideias desta letra é que o Eterno quer que nasçamos num mundo físico incompleto para melhorá-lo e isto só é possível ser agirmos escondidos, com retidão de caráter. O significado de Tsadic é “justo” e seu atributo é “oculto” ou “escondido”. E é este senso de justiça que faz do indivíduo um líder. Entretanto, esta liderança não é fruto apenas de uma benção mágica, mas principalmente de sua intervenção no mundo físico com o objetivo de torná-lo melhor.

Quando olhamos para o Arcano Mundo/Universo, vemos apenas o resultado, as realizações, sem imaginar ou supor quantos anos ou décadas foram necessárias para que o indivíduo se aperfeiçoasse para atingir esta condição de maestria em seu ramo de atividade. O Neófito vê apenas aquele ser “iluminado” sem saber da natureza e qualidade de suas experiências ao longo de sua vida. Num primeiro momento, este estado de consciência pode ser uma finalidade ou meta a ser perseguida, não acha?

Mas quando você não tem nada a perder, pode ainda olhar para a direita. O caminho que parte do Reino nesta direção é aquele da letra hebraica Kuf, ilustrada pelo Arcano Louco. Este é um bom caminho a seguir, pois as três linhas que formam esta letra representam o pensamento, a fala e as ações profanas, que ainda não podem ser consideradas sagradas. O Zohar associa esta letra à falsidade e à impureza. Kuf significa macaco, pois este animal, através da mímica, repete tudo o que vê.

Os significados desta letra convidam à transformação do instintivo em racional e, deste ao divino. O Louco nos lembra que qualquer caminhada começa com o primeiro passo, com uma atitude de pureza, com um vazio de intenções, um papel em branco para ser preenchido por novos pensamentos, intenções e ações rumo ao Eterno. Parece também um bom caminho a seguir.

Mas se desejar um caminho mais rápido e direto para ir ao encontro da finalidade de sua existência, terá de seguir em frente. A letra hebraica deste caminho é Tav, associada à verdade, à vida e à morte. Seu principal atributo é a humildade. O calcanhar do pé não tem conhecimento e nem sabedoria, mas aceita ser colocado dentro de um sapato, onde está escuro, para ir aonde a cabeça conduzir. É como aceitar os propósitos do Eterno em e para a sua vida. Os pés são os alicerces do corpo e da cabeça, da mesma forma que a humildade é o alicerce para qualquer senda espiritual ou criativa que pretenda para si ou para a sua vida.

A verdade costuma ser encontrada ao final da jornada, e não em seu princípio, o que reforça a necessidade da humildade. A imagem do Arcano Lua mostra-nos um caminho ladeado por duas torres, partindo de um poço, do qual não se distingue o seu final. A Lua só está Cheia e iluminada porque o astro-rei, o Sol, envia-lhe sua luz. Ou seja, as aparências enganam, mas é preciso ser humilde para seguir uma trilha sem saber para onde leva, mas com a confiança de nascer para uma nova vida, tornar-se um “Novo Homem”.

Embora seja um caminho direto, é o mais difícil dos três aqui abordados, pois implica em abandonar sua zona de conforto. Em Lucas, 14:33, encontramos: “Assim, aquele dentre vós que não renunciar a tudo o que tem não pode ser meu discípulo.” Esta mensagem ecoa em todos os caminhos ascendentes da Árvore da Vida e deve nortear a caminhada do Neófito, uma vez que a regeneração e a iluminação são conquistas individuais.